domingo, dezembro 24, 2006

Quando a noite chega

Nas esquinas eles estavam enquanto a noite não chegava.
Era falado na cidade que quando o crepúsculo chegava, a paz não permanecia no mesmo lugar.
Falavam sim, porém poucos acreditavam.
Os três, que muito zelosos eram, não queriam ver para crer.
Tinham muito o que fazer ainda, entre ofertar sua ajuda e recolher os donativos.Havia quem deles precisasse, mas não quem pudesse salvá-los. Por isso, assim que o Sol se foi eles foram também.
Recolheram tudo o que puderam e seus sorrisos encantaram quem ali estava. Não sairam sem antes fazer o que seria a última bondade do dia: Aquela jovem senhora agradeceu por aquele pão como se um banquete tivesse sido entregue a ela. Nessa hora eles tinham absoluta certeza do quão importante era aquele trabalho. Por isso continuariam até que não pudessem mais.
Partiram com a certeza de que fizeram tudo o que podiam . Pela mahhã haveria muito mais a fazer.
Mais tarde, enquanto estavam em casa, algo os chamou a atenção.
Ninguém costumava chamá-los àquela hora da noite. A casa já estava fechada, eles já iam se recolher, porém ouviram um grito suplicante: "Preciso de vocês, me ajudem, aconteceu algo grave comigo" Eles se entreolharam e lembraram do que um antigo e sábio morador do local havia falado. Ele disse para que nunca ninguém atendesse um chamado tarde da noite. Que coisas muito ruins podiam acontecer. E resolveram seguir as recomendações. Não abriram a porta, nem responderam ao apelo. O chamado cessou após mais três tentativas.
Eles então resolveram olhar pela janela e um terror tomou conta dos três: Viram uma figura sombria deixar o portão, com uma roupa de frade preta e logo entenderam o que o velho sábio sempre dizia: O mal existe aqui como em qualquer outro lugar. E onde houver o bem, ele estará lá.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Páginas do fim

Encontrei as anotações em páginas abertas por acaso
Em meio a todos aqueles papéis me chamou a atenção o título. E foi pelo título que eu resolvi ler.
Li todas, li tudo que falava da parte mais difícil para a família daquela gente
Não se tem idéia da quantidade de pessoas que passam por isso todos os meses. E não são poucas. Quase sempre o fim não é o que se espera nem muito menos o que se imagina.
E às vezes vem muito cedo. Muitas vezes vem antes que se possa esperar. De surpresa. Não há tempo para despedir-se de tudo aquilo que não pensamos deixar um dia
A grande quantidade de folhas de um único mês pode fazer qualquer um se sentir como números de um sorteio de loteria. Números que (ainda) não foram sorteados.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Abílio

Abílio chegou e não disse a que veio. Tímido e discreto na mesa do computador. Passaria despercebido por qualquer um que o visse
Mas havia alguém especial que não era qualquer um. Alguém com uma sensibilidade aguçada. Num primeiro momento desdenhou a estranha espécie. Figura inanimada, estática, porém já especial, alegrou aquela noite.
E veio para ficar
Ganhou status de visita ilustre. Ganhou uma música, ganhou uma dança, ganhou risadas e até maldizeres.
Passou a acompanhar quem agora já não sabia viver sem ele. Deixou de acompanhar quando percebeu-se que os passeios poderiam prejudicá-lo. Mas vive lá, vive para jamais ir embora, eterno objeto sem vida que vive.
E como vive.

segunda-feira, novembro 06, 2006

O pedido

A chuva caia mais que o normal naquele final de tarde. Ver o arco-íris já não era mais nenhuma novidade.
Lembraram-se daqueles tempos de pouca água e pouca esperança. Era difícil não rezar todas as noites para que o líquido sagrado chegasse.
Agora toda aquela água não fazia mais sentido algum
Baldes cheios, poços cheios, lagos cheios. Os lagos já transbordavam.
Ao olhar para o céu, todo o povoado se perguntava se já não era hora de tudo aquilo terminar. Uns reclamavam, outros esbravejavam, outros ignoravam o que acontecia, assim como ignoravam a falta da água. Assim como ignorariam qualquer outro acontecimento.
Dez dias de chuva ininterrupta. Cinco dias de Sol. Não importava se o Sol chegava. A chuva teimava em ficar. E se a noite caia, lá estava ela, contrastando com a beleza da lua.
O tempo se passou e a chuva continuou
Longo tempo sem notícias do povoado
Descobriu-se a cidade submersa. Todo o povoado se foi, ninguém para contar o desfecho.
E a chuva continua...

sexta-feira, abril 21, 2006

Isabela

A pequena Isabela tinha olhos negros, assim como seus cabelos.
Belos cabelos lisos, belos olhos brilhantes e expressivos
Olhos como os de uma pequena japonesinha, mas não era. Talvez tenha herdado de algum antepassado distante.
Sua pele era branca como a luz da lua
Seu sorriso encantava aqueles que já a amavam, mesmo sendo ela tão pequena e frágil.
Aquele rosto jamais será esquecido
Ele se foi no fim do sonho
Mas permanece...

sábado, janeiro 21, 2006

O Fim

As águas estavam calmas naquela manhã de domingo
Nem aqueles que temiam a força do mar tiveram receio
Mergulharam
Sorriram felizes
Como nunca antes
Eles tinham em quem confiar desta vez
E confiaram
Não demorou para a água ficar revolta
E como antes surgiu o medo
Agora sem salvação
Eles já estavam longes do litoral
Em quem confiar agora?
Onde estava ele?
Por que se foi? Para onde se foi?
Estavam sós e em alto mar
Medo e decepção
Silêncio e a vida se foi.