quarta-feira, novembro 22, 2006

Páginas do fim

Encontrei as anotações em páginas abertas por acaso
Em meio a todos aqueles papéis me chamou a atenção o título. E foi pelo título que eu resolvi ler.
Li todas, li tudo que falava da parte mais difícil para a família daquela gente
Não se tem idéia da quantidade de pessoas que passam por isso todos os meses. E não são poucas. Quase sempre o fim não é o que se espera nem muito menos o que se imagina.
E às vezes vem muito cedo. Muitas vezes vem antes que se possa esperar. De surpresa. Não há tempo para despedir-se de tudo aquilo que não pensamos deixar um dia
A grande quantidade de folhas de um único mês pode fazer qualquer um se sentir como números de um sorteio de loteria. Números que (ainda) não foram sorteados.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Abílio

Abílio chegou e não disse a que veio. Tímido e discreto na mesa do computador. Passaria despercebido por qualquer um que o visse
Mas havia alguém especial que não era qualquer um. Alguém com uma sensibilidade aguçada. Num primeiro momento desdenhou a estranha espécie. Figura inanimada, estática, porém já especial, alegrou aquela noite.
E veio para ficar
Ganhou status de visita ilustre. Ganhou uma música, ganhou uma dança, ganhou risadas e até maldizeres.
Passou a acompanhar quem agora já não sabia viver sem ele. Deixou de acompanhar quando percebeu-se que os passeios poderiam prejudicá-lo. Mas vive lá, vive para jamais ir embora, eterno objeto sem vida que vive.
E como vive.

segunda-feira, novembro 06, 2006

O pedido

A chuva caia mais que o normal naquele final de tarde. Ver o arco-íris já não era mais nenhuma novidade.
Lembraram-se daqueles tempos de pouca água e pouca esperança. Era difícil não rezar todas as noites para que o líquido sagrado chegasse.
Agora toda aquela água não fazia mais sentido algum
Baldes cheios, poços cheios, lagos cheios. Os lagos já transbordavam.
Ao olhar para o céu, todo o povoado se perguntava se já não era hora de tudo aquilo terminar. Uns reclamavam, outros esbravejavam, outros ignoravam o que acontecia, assim como ignoravam a falta da água. Assim como ignorariam qualquer outro acontecimento.
Dez dias de chuva ininterrupta. Cinco dias de Sol. Não importava se o Sol chegava. A chuva teimava em ficar. E se a noite caia, lá estava ela, contrastando com a beleza da lua.
O tempo se passou e a chuva continuou
Longo tempo sem notícias do povoado
Descobriu-se a cidade submersa. Todo o povoado se foi, ninguém para contar o desfecho.
E a chuva continua...